Estranho como aquela fotografia congelara o exato segundo que antecedera o sorriso, transmitindo uma sensação de pura felicidade antes de seu ápice, ainda cheia de esperanças e eternizada. Três meses sem abrir aquele quarto e a poeira quase que tomara totalmente o vidro que protegia o retrato. Ele recolocou a imagem em cima da mesa, onde o lugar fora marcado pela não incidência da fina camada de pó. Caminhou vacilante pelo cômodo, sem saber ainda o que procurava, seus olhos iam varrendo as paredes, mesa, cama e hora seu pensamento se detinha em uma situação, para ir pulando de memória em memória. Não importava o percurso, porém, sua mente sempre chegava ao mesmo ponto final, na mesma tarde triste.
Engraçado como ele sempre quisera Sua casa, Seu espaço, Sua solidão. Agora parecia tudo tão morto e congelado no tempo, a vida tão mecanizada. E ele esperava e esperava, sem ao menos saber o que. Enganava-se, ele sabia exatamente por o que aguardava.
Todas as luzes da vizinhança se apagando. Famílias tirando a mesa do jantar, amantes tentando ocupar o menor espaço possível das camas. Era essa a hora do dia em que a velhas lembranças dolorosas se levantavam de seja lá onde elas costumavam se esconder. Não sabia por que naquele dia resolvera voltar para aquele quarto, sempre trancado por fora. As medalhas penduradas na parede, a pintura de céu que ocupava o teto, os toscos desenhos representando aquilo que viria a ser um homem solitário, uma mulher covarde que tomara comprimidos demais e uma criança que nunca cresceria. E agora tudo naquela casa parecia tão grande, todas as coisas tão plastificadas e somente uma coisa viva: um homem que se deteriorava a olhos nus.
Nem o trabalho, nem o álcool, muito menos outras pessoas, nada se mostrava uma solução. Agora o bico da 12 sorria ironicamente para ele, oferecendo uma alternativa, cada vez mais, definitiva.





