domingo, 27 de novembro de 2011

Retrato.










Estranho como aquela fotografia congelara o exato segundo que antecedera o sorriso, transmitindo uma sensação de pura felicidade antes de seu ápice, ainda cheia de esperanças e eternizada.  Três meses sem abrir aquele quarto e a poeira quase que tomara totalmente o vidro que protegia o retrato. Ele recolocou a imagem em cima da mesa, onde o lugar fora marcado pela não incidência da fina camada de pó.  Caminhou vacilante pelo cômodo, sem saber ainda o que procurava, seus olhos iam varrendo as paredes, mesa, cama e hora seu pensamento se detinha em uma situação, para ir pulando de memória em memória. Não importava o percurso, porém, sua mente sempre chegava ao mesmo ponto final, na mesma tarde triste.
                Engraçado como ele sempre quisera Sua casa, Seu espaço, Sua solidão. Agora parecia tudo tão morto e congelado no tempo, a vida tão mecanizada. E ele esperava e esperava, sem ao menos saber o que. Enganava-se, ele sabia exatamente por o que aguardava.  
Todas as luzes da vizinhança se apagando. Famílias tirando a mesa do jantar, amantes tentando ocupar o menor espaço possível das camas. Era essa a hora do dia em que a velhas lembranças dolorosas se levantavam de seja lá onde elas costumavam se esconder. Não sabia por que naquele dia resolvera voltar para aquele quarto, sempre trancado por fora. As medalhas penduradas na parede, a pintura de céu que ocupava o teto, os toscos desenhos representando aquilo que viria a ser um homem solitário, uma mulher covarde que tomara comprimidos demais e uma criança que nunca cresceria. E agora tudo naquela casa parecia tão grande, todas as coisas tão plastificadas e somente uma coisa viva: um homem que se deteriorava a olhos nus.
Nem o trabalho, nem o álcool, muito menos outras pessoas, nada se mostrava uma solução. Agora o bico da 12 sorria ironicamente para ele, oferecendo uma alternativa, cada vez mais, definitiva.

sábado, 29 de outubro de 2011

Rodovia.







Era o terceiro ônibus que ele pegava seguido, sempre de uma cidade cujo nome ele desconhecia, rumo uma cidade que tão pouco.  Odiava o sufocante calor, o choro das crianças, um eterno estado de semi-sono e o constante sacolejar. E mais ainda: odiava a incerteza de quantos transportes mais ainda seriam necessários para ele se sentir de fato distante de tudo aquilo que fugia. Agora os campos amarelos passavam ligeiros por sua janela embaçada. Tudo ao seu redor ia mudando, homens de negócios perderam seus lugares nos assentos para simples trabalhadores do campo, até as estrelas voltaram a brilhar no céu, e, de vez em outra, uma vaca agraciava-o com sua estúpida ignorância. O ar se tornara respirável, e o sofrimento e cansaço mais frequentemente estampado nos rostos. Mas aquele calor era o pior de tudo, paralisava seu pulmão e turvava seus pensamentos, colocando-o em estado febril.
Não ligava para o que pensassem, para as tias tristes inventado eufemismos para sua partida. Se tornar o tabu da família. E não ligava para que pensassem que ele era um covarde e, pelo amor de cristo, ele até havia deixado uma carta!
“Não fui sequestrado, não enlouqueci e principalmente, não me tornei viciado em algum tipo de droga da moda que mata milhões. Simplesmente achei razoável sair daqui, acho que algumas pessoas não nasceram para sustentar teatros sociais tão facilmente. Não se preocupem, estou bem. Talvez voltemos a nos ver um dia, muito provavelmente não.
Obrigado por tudo, amo vocês (à minha maneira). “
Sabia que em breve teria que parar em alguma cidade por uns dias, captar alguns recursos. Maldito mundo capitalista, nem o deixava fugir em paz! E o pior de tudo é que sua cabeça ainda estava muito acelerada, não parava de pensar um segundo em tudo, na sua recém-antiga vida. Continuaria procurando, mesmo sem ter ideia do que.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Por que resiste?










 Puxar aflitamente uma última bocada de ar, antes de submergir na imensidão negra de um oceano do subconsciente. Não mais fácil seria deixar os pulmões completamente vazios e abreviar o debater da mente? Correndo por campos de espinhos, com os pés mais osso e menos carne, com a dor do desespero de chegar ao limite.

ACORDE!

Cuspiu na pia, mirou os olhos injetados no fragmento de espelho. Levantou os pés e encontrou o resto dele, formando um mosaico do seu rosto, misturado com sangue.  A cama estava virada e no chão, a denúncia do excesso da última noite. Lembrar-se era tão difícil, mas uma coisa não parava de golpear sua cabeça: a sensação desesperadora de imaginar que não voltaria dessa última viagem. O corpo frio, as mãos brancas e o coração estático. Havia apenas uma certeza: era isso. Mas nesse momento ele sentia como se tivesse voltado de um lugar há muito esquecido. Parou. Riu, quem ele estava tentando convencer? Sabia que, daqui algumas horas, a próxima picada iria parecer a ideia mais genial que alguém tenha pensado nessa piada que chamam de história da humanidade. Estava bravo e não sabia o porquê. Sentia-se triste mas conhecia a fonte. Fonte da qual bebera, quase que de forma febril, por repetidas vezes. Colocando os pontos nos “i”s. Só queria deixar aquele buraco fedido e destruído, descobrir onde estava e desaparecer. Queria ver o mar e o vento carregando areia. Mas COMO queria o líquido quente correndo em suas veias roxas agora. Olhou no quarto inteiro e só encontrou alguns gramas. Mas como? Tinha tanto ontem! E entendeu como chegara naquele estado fúnebre na última noite, errara na dose. Na verdade ele sabia que estava se testando, sempre puxando mais o embolo da agulha, sempre indo mais fundo naquele oceano. Mas também, ele estava quase alcançando o tesouro sepulcro em seu subconsciente, não pararia agora.

domingo, 18 de setembro de 2011

O Pacto.










Algumas horas e meio tanque depois, os pneus carecas ainda devoravam quilómetros de asfalto. Iluminada pela lua, a estrada podia ser facilmente confundida com um rio negro, que ziguezagueava por entre a serra. Seu caminho serpentino era acompanhado por um agradável frio. Mais um minuto, mais uma bituca cruzava o céu a 140 por hora, expulsa do carro por um peteleco. Riscava a noite de laranja e se despedaçava no chão.
                Encostou o carro em uma saída de terra, saiu sério. Deixou a porta semiaberta e caminhou pela estrada. “Ninguém vai roubar essa lata velha”, pensou. O caminho para a cabana no meio das árvores ele já conhecia, infelizmente.  Suas botas marcavam o chão e sua bolsa de couro pesava no ombro, pelo assombroso número de livros nela contida. Livros estes escritos pelas mãos de seus ancestrais.  Não era simples literatura, eram manuais. Encarou a porta rústica de madeira e, sem bater, abriu-a com um ponta-pé. Jogou seu chapéu sobre uma mesa cujo um dos pés havia sido substituído por um pedaço de vassoura. Também deixou sua bolsa escorregar para o chão e sem aviso ou hesitação, desferiu um potente soco no lábio do senhor que estava sentado em sua cama. Seus anéis romperam o lábio do velho senhor, pintando as cobertas da cama quando a cabeça deste foi arremessada para trás. Ele colocou a ponta de sua bota na garganta do velho e apertou até que o protesto virasse um gemido silenciado.
                -Você sabe por que estou aqui, e você também sabe por que eu vou te matar. E você merece mesmo, como merece...
                Nesse ponto, aliviou a pressão da garganta do velho, que cuspiu sangue antes de conseguir emitir alguma palavra entendível.
                -Eu só quero que você saiba que não foi minha culpa e nem minha intenção e que...
                Nesse ponto, o que costumava ser a cabeça do ancião foi espalhada de forma desigual por sobre a cama. O bico da doze, serrado para melhorar sua portabilidade, ainda soltava fumaça, como que para completar o que o velho não conseguira dizer. Ele pegou um dos livros em sua bolsa e começou a ler uma passagem.
                -“... e no momento em que o pacto for rompido, sangue deve ser derramado na terra fria, para que o trabalho dos nossos pais não seja esquecido, para que a alma se acalme e os lobos não mais uivem.”. Dada essa sentença, eu te condeno, velho idiota.
                Ele deixou o corpo naquele mesmo lugar, jogado sobre a cama. Lembrou-se de não fechar a porta para que os animais da floresta dessem um jeito naquele quarto recém-rubro. Voltou para seu carro e o jogou na estrada, tantas horas para poucos minutos. Mais um cigarro acesso e mais um nome da lista.  Sua barba por fazer mostrava como a semana tinha sido agitada. Poucas horas de sono, muitos tiros, muitas cobranças.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A farsa.






              Inexpressivo.  Pegou suas coisas, juntou-as em uma sacola grande e amarrou a boca com um dos cadarços do seu tênis surrado. Roupas, algum dinheiro e um ou outro objeto que lembrava algum dos escassos momentos felizes da sua história. Fez questão de deixar documentos e coisas de maior valor.  Partiu daquela casa, que era mais teatro do que lar. Foi simples e ele nem ao menos olhou uma vez para trás. Agora, finalmente, assumiu sua sina e caminhou sozinho. Tudo era claro e óbvio, sua trilha só tinha espaço para um. Lembrou-se de todas as tentativas de compartilhar sua vida com outras pessoas, sempre com um fim decepcionante, sempre descobrindo o pior de cada um, o lado podre do humano, maquiado por sorrisos simpáticos e palavras acolhedoras. Pensou na natureza, e em como o humano tentava, em seu parto suicida e desesperado, livrar-se dela. Expeli-la de seu corpo. Ora, como haveria de ser melhor assim? Pois, sendo essa separação impossível, o que restava era a hipocrisia da existência. Uma dança de mascaras em que cada um fingia se importar, fingia sorrir e fingia amar. Porém, na menor das dificuldades, no mais singelo obstáculo, todo esse fingimento era abandonado para que os alves dentes do individualismo e do único amor realmente existente: o amor próprio serem mostrados.
             Agora, caminhando por conta própria, sem muletas sentimentais, sem falsos rebanhos, ele podia finalmente se sentir livre e queimar sua fantasia social. Não que assim se sentisse melhor ou mais feliz, mas o cansaço de buscar alguém o vencera. Como não ser diferente? Como ser como eles, sempre se adaptando ao ritmo da música? Não sabia e tinha a impressão de que nunca saberia.
Tudo que possuía agora era um par de vestimentas, dinheiro para uma passagem só de ida e um relógio, uma carta e duas fotos. Pronto, estava mais do que preparado para enfrentar seu destino, seja ele qual fosse.  Via velhos e se perguntava se eles nunca tinham percebido a fraude que era essa vida levada ou se eles simplesmente resolveram se render ao ópio midiático e constitucionalizado.
           Só agora, abandonadas todas as esperanças e expectativas, começaria a viver. Sozinho, como no começo e como seria no fim.


quinta-feira, 9 de junho de 2011

Simples assim.










Era fácil perceber que aquilo nunca ia dar certo. “Muito diferentes!”, “muito complexo!” e até “muito esquisito...”, diziam. O problema é que ele nunca gostara de ouvir os outros, nunca se dera ao trabalho de acatar opiniões. Até o presente momento tinha dado certo, então não seria ser agora que ele mudaria sua conduta e se intimidaria por opiniões alheias. Mesmo sabendo que as chances de uma tragédia grega se desenhar eram grandes, ele fechou os olhos, sorriu e pôs o cérebro na gaveta. E que se danem todas as extensas literaturas e os incontáveis exemplos, ele iria construir as coisas da sua maneira agora.
                Desligou o som do despertador, com Mick Jagger ameaçando-o de que ele não conseguiria aquilo que buscava. Escovou os dentes olhando o relógio e pensando “fudeu!”, fez a barba se cortando em uns cinco lugares diferentes, “amanhã eu troco essa lâmina”. Esperou impaciente a água do chuveiro adquirir temperatura suportável, provando-a de tempos em tempos, covardemente, com as pontas dos dedos. Misturou o shampoo e o condicionador, “não tenho tempo pra isso...”. Pegou a primeira calça e a primeira camiseta, trocou. “Droga, não é uma boa ideia ir ao primeiro encontro com uma camiseta escrita: respeite meus poderes jedi!”. Espelho, perfume e sorriso. “Acho que é o melhor que posso fazer”. “Tchau mãe, não sei que horas eu volto.”, sorriu ao pensar em completar: “se tudo der certo, só amanhã.”.
                Cruzou a esquina quase correndo e entrou, ainda meio ofegante, na casa toda iluminada e cheia de pessoas em volta. O som alto, o cheiro forte e a lotação fizeram ele perder mais uns trinta minutos até avistar o sorriso que esperava ver. “Fodam-se as probabilidades, eu vou mostrar como se faz.”. Estufou o peito, deu seu meio sorriso e caminhou calmamente.
Fim.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Deserto.









 Caminhando pelo deserto, sobras bruxuleavam de baixo de seus cadarços. O correr das nuvens tirava seu sono. Ele não dormia há anos, não comia há décadas. Seus cigarros haviam acabado por isso ele fumava suas memórias, já escassas, incinerando-as brutamente para que estas fizessem companhia às suas esperanças, subindo rumo ao nada.  Nem ao menos os urubus sorriam agora, apenas o encaravam fixamente, talvez em um misto de espera e seriedade ritualística. Ele podia ouvir o uivo do mar, sentir seu cheiro salgado, mas sabia que nunca iria conseguir alcança-lo. Não naquele deserto, não andando sob um gigantesco oito. E as nuvens prosseguiam apostando corrida, e a cada nova volta olhavam com sadismo para ele. Ele estava tão longe delas que elas não entendiam que aquilo era de fato uma pessoa, para elas, ele já fazia parte da paisagem.  E suas lembranças permitiram que ele continuasse o caminho por mais algumas milhas, mas elas estavam acabando, tornando-se distantes e disformes.
Um sopro, dois, três... o vento quente estapeava sua cara nua e indefesa. E tudo o que ele esperava que conseguiria ao entrar naquele deserto labiríntico só ficava cada vez mais etéreo. Sabia que não iria conseguir fugir e escapar dessa vez. Não sozinho.